Vagabundagem
Eu nunca trabalhei no Brasil até o começo dos anos 90.
Como nasci em 1944, fica a pergunta:
Como viveu por todos estes anos?
Não tenho nenhuma vergonha de dizer que até 1965, então com 21 anos, eu fui sustentado pelo meu pai, e vivia em casa estudando, praticando esportes, e adquirindo conhecimentos.
Em julho de 1965, fui viver nos Estados Unidos como estudante e aí comecei a trabalhar para me sustentar. Nos primeiros meses, em Atlanta no estado da Geórgia, trabalheis como faxineiro na cozinha do restaurante do Hotel Haytt Regency. Depois, em poucos meses me mudei para Nova Orleans por causa do frio, e por lá não trabalhei, me mudando para o Texas. Em Dallas no Texas trabalhei como garçom nas festas de fim de ano, e logo depois me mudei para Houston. Nesta cidade me situei e foi aí que tive o meu primeiro contato com o sindicato.
Consegui emprego em uma fábrica de plástico como criador de matrizes de extrusão, um trabalho delicado e preciso. Nesta fábrica, ao ser contratado, me encontrei em face de uma decisão.
No departamento de pessoal, hoje mais conhecido como Recursos Humanos, ao ser fichado, uma educada senhora me perguntou se eu queria pertencer ao sindicato. Ela me disse que no Texas, era lei que as pessoas poderiam escolher se queriam contribuir ou não para o fundo sindical e que não era obrigatório. Perguntei então se era alguma vantagem pertencer ao sindicato ao que ela respondeu ser isto era uma decisão pessoal minha. Poderia, se eu quisesse optar pertencer ao quadro sindical, pagar pelo privilegio e depois se não visse vantagem nenhuma, sair do sindicato. Eu depois de ponderar um pouco perguntei a ela se poderia fazer o contrário, deixar para depois esta decisão. Ela disse que sim, mas eu seria o único empregado em toda a empresa a não pertencer ao sindicato, e que sofreria pressões para me filiar. E sofri muitas pressões. O líder sindical me procurou e tentou me convencer a pertencer. Seus argumentos eram fracos demais. Coisa assim:
- O sindicato, sendo forte pode te representar frente ao patrão, e conseguir para você melhores salários.
Ao que eu retrucava:
- Eu sei me comunicar e o patrão vai ver se existe vantagem ou não em me dar um salário melhor. Acredito que se o meu trabalho for melhor do que o de outras pessoas, eu vou conseguir melhores salários e posições, enquanto que se eu estiver pertencendo a alguma classe, vou ter que me contentar com um aumento geral antes de ser beneficiado com um acréscimo de salário.
Ele retrucava:
- Este tipo de pensamento, pode enfraquecer o sindicato e prejudicar todo o grupo. O patrão pode te explorar e exigir de ti mais trabalho do que exige de nós sindicalizados.
E eu dizia:
- Cara, este é um pais livre, se eu não estiver gostando do salário ou me sentir estar sendo abusado, eu posso sair e arranjar outro trabalho. Eu conheci este trabalho sem ajuda do sindicato, e posso conseguir outro da mesma forma.
Ele retrucava:
- Você não entende o espírito sindical. Não é assim que as coisas são feitas por aqui. Se você não pertence ao sindicato, pode haver problemas com você. Não vai haver ninguém para te ajudar. É melhor você pertencer ao sindicato como todos nós e evitar problemas futuros.
Isto me pareceu uma ameaça, e era sem duvida uma ameaça. Sofri todos os tipos de represália, furavam constantemente os pneus do meu carro no estacionamento, roubavam a minha merenda, ou quando não roubavam colocavam imundices dentro dela, urinaram em minhas roupas dentro do meu armário várias vezes, e coisas assim.
Não esmoreci, continuei a trabalhar, fazendo por minha conta o meu trabalho. Eu como novato fazia o turno da noite, de 11 da noite às 7 da manhã. Meu trabalho era fácil, consistia em estar de prontidão e quando algum molde se perdia em uma extrusora, teria que substituir. Como isto era raro de acontecer e para passar o tempo, eu procurava os pedidos de moldes pendentes e de acordo com os desenhos técnicos ia fabricando os moldes em demanda. Trabalhava bem devagar, e com muito capricho. Em pouco tempo, fui chamado para conversar com o meu chefe direto. Ele me disse que apesar de trabalhar só e à noite, estava fazendo um bom trabalho com uma produção superior ao turno diurno que empregava seis pessoas para este trabalho, três pela manhã e três pela tarde. Como os trabalhos finais eram assinados pelo operário encarregado, a minha produção e a qualidade estavam muito maiores do que os outros turnos. Eu então perguntei a ele se isto era ruim.
Ele então me disse:
- Não pelo contrário, para a empresa é muito bom, mas estou preocupado com a sua integridade, pois estou ouvindo rumores de que o sindicato está preparando algo muito ruim para você, e não quero que isto aconteça. Seria melhor você conseguir outro emprego antes que seja tarde. Tenho amigos neste ramo e posso te ajudar.
E para evitar maiores problemas fui trabalhar em uma empresa menor e que não era sindicalizada.
Neste momento de minha vida, entendi o que era o sindicato. Era um clube de vagabundos onde os chefes sindicais desfrutam de vários benefícios, não repassam nada aos sindicalizados e quando alguém como no meu caso decide não contribuir, eles fazem pressões em detrimento aos interesses da empresa que os empregam.
Houver em minha vida outros embates com os sindicatos. Em alguns casos paguei por não ter alternativas, mas depois recuperei tudo com ações judiciais. Mas em geral nunca paguei nenhuma contribuição sindical. Nos Estados Unidos em geral, nas fábricas ou os empreendimentos que não sejam sindicalizados, os produtos são mais bem elaborados, os salários são melhores, e as condições também são melhores. Nos estabelecimentos sindicalizados, todo o quadro de trabalhadores fica inchado com pessoas apadrinhadas que em geral não fazem nada, e diluindo o salário das pessoas que realmente estejam trabalhando. Um trabalho que pode facilmente ser desempenhado por uma pessoa especializada, fica sendo feito por cinco ou seis inúteis sindicalizados. E geralmente o resultado fica pior como no caso de meu primeiro emprego acima descrito. O sistema sindical é um clube de vagabundos. A média é tirada por baixo.
O Brasil recente teve uma oportunidade de ouro de melhorar esta situação com um projeto de lei que tirava a obrigatoriedade da contribuição sindical. O loby sindical não deixou este projeto vigorar e foi derrubado na câmara federal. No senado passou, mas com uma emenda corretíssima de que os fundos dispensados seriam fiscalizados pelo TCU, que é o órgão semi-independente ligado ao legislativo para fiscalizar o correto uso do dinheiro público.
Esta emenda foi vetada pelo presidente Lula, com a desculpa esfarrapada de que em toda a sua vida lutou pela independência sindical e que agora não iria vincular o dinheiro do sindicato ao critério do TCU. Bem o presidente, membro emérito do clube dos vagamundos cedeu às pressões sindicais que foram então comandadas pelo Paulo Pereira da Silva,
que depois do veto presidencial (inconstitucional e questionável) promoveram uma festança particular onde a mídia não foi convidada nem permitida participar.
Este mesmo Paulo, apelidado de Paulinho da Força, é um grande vagabundo e o presidente Lula, com seu veto, cedeu aos seus inícios no clube dos vagabundos e inconstitucionalmente e ilegalmente considerou o dinheiro público que obrigatoriamente é retirado do trabalhador em forma de um dia de trabalho anual como privado e do sindicato. E o presidente, em sua competência considerou que este dinheiro é do sindicato para ser usado da forma que quiser sem ter que prestar contas a ninguém, ou prestar contas da forma que lhes convier, e vetou a fiscalização pelo órgão competente.
Coisa de mandatário vagabundo e autoritário como todo líder sindicalista sem nenhuma exceção.
O dinheiro e as mordomias sindicais que não são poucas para os dirigentes, não foram suficientes para o Paulinho da Força que achou que o dinheiro do BNDES, que em sua maioria vem do FAT e que, portanto é do trabalhador, seria também seu de direito e se meteu em uma tremenda maracutaia para botar as mãos também neste dinheiro.
Esta fase da vagabundagem está sendo investigada, e pode ficar ruim para o Vagabundo da Força.
Eu aposto que o outro vagabundo, o da presidência está neste momento se mexendo para fazer o que seja possível para proteger seu igual no clube da vagabundagem.
Estou torcendo para que este não seja outro caso de impunidade que está marcando este governo como o mais corrupto de todos os governos que se tenha notícia na história.
Abaixo, escolhi par finalizar dois artigos que espelham a confusão do desgoverno que está assolando o país.
O primeiro do Villas:
A dose mínima de simplicidade.
Por Villas-Bôas Correa
Na repolhuda equipe que ocupa os espaços nobres do governo do presidente Lula falta o amigo de confiança, com a autoridade da longa convivência além da ousadia para avançar o sinal e falar com a rude franqueza no momento certo, no contraponto do chorrilho de elogios merecidos pelo muito que está dando certo.
Lula é um temperamento que pega no tranco e dispara ao primeiro sinal de que o caminho está livre. A sua biografia acompanha a trajetória que começa no sertão de Garanhuns, na tórrida zona da seca, e muda o rumo com a coragem de dona Lindu ao levar a filharada no pau-de-arara para Paulo. Aqui Lula é alfabetizado no troca-troca de três escolas públicas, tira o seu certificado profissional no Senai, trabalha em várias empresas e alça vôo na fulminante ascensão como líder sindical que funda o PT, coleciona três derrotas como candidato a presidente da República e se elege na quarta tentativa, para o bis da reeleição.
A tisana do êxito excita o exibicionismo do inquieto e impaciente, que abomina as tediosas conversas políticas e as intragáveis reuniões administrativas para tratar assunto em geral já decidido mas que empacam na engrenagem burocrática. Solta-se à vontade, nas viagens a pretexto de lançar projeto de obras, acompanhar o seu andamento ou a suprema ventura da inauguração. Sempre com o palanque armado, assistência a favor garantida e o microfone a postos para o improviso da sua facúndia de excepcional comunicador popular, capaz de dois, três e mais discursos no giro de um dia.
Com tais incentivos, cutucado pela aprovação da sociedade, Lula passou da medida. E, agora, como que perdeu as estribeiras e a noção da conveniência. Emenda, uma atrás da outra, as caneladas nos desafetos e os elogios mais descabidos e absolutamente incompreensíveis a antigos inimigos. E baixou o nível na linguagem chula que chega a pornografia. Dá para entender, apesar do erro tático, a sua implicância com o antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depois da transição civilizada, com salamaleques e promessas de amizade eterna. Como o “aqui você deixa um amigo”, à porta do Palácio Alvorada, depois do longo jantar íntimo dos casais presidenciais.
Liberto das cautelas, livre como o pássaro que escapa da gaiola, o presidente dirigiu a sua maratona de reconciliação com os desafetos do passado recente com o ímpeto de derrubar todas as cercas de arame farpado. Numa das sessões de descarrego, elogiou em dose dupla os ex-generais-presidentes Emílio Médici e Ernesto Geisel, numa penitência de comover o mais empedernido coração. Do ex-presidente Geisel se salva a intervenção no DOI -Codi de São Paulo, depois de duas mortes sob tortura do jornalista Wladimir Herzog e do operário Fiel Filho.
Do mandato do presidente Médici não há notícia de um gesto, de uma palavra de apoio ao retorno da normalidade democrática. Só agora, andando de costas, o presidente Lula reeditou o brado retumbante do “ninguém segura este país”, lema enigmático da ditadura militar que não esclarece quem pretendia segurar o Brasil.
Se em boca fechada não entra mosca, da goela escancarada podem escapar involuntárias tolices. Das quais, deve-se presumir o arrependimento do deslumbrado presidente no topo da popularidade e com o reconhecimento internacional, carimbado pela Standard & Poor´s, do grau de investimento, que acena com um período de prosperidade com a atração de capitais estrangeiros.
Se o estoque de sentenças está desfalcado pelo excesso de uso, cutucando os escassos neurônios, sempre se encontra o cascalho amontoado no canto. Lembro a curta máxima do saudoso Paulo Francis: Quem não lê, não pensa. Ou, lá fundo, no buraco da memória, o provérbio de áspera advertência: Elogio em boca própria é vitupério. Vitupério é um substantivo feio, que soa como xingamento. E é quase: insulto, injúria, ato vergonhoso, infame ou criminoso.
Convenhamos que não é caso para tanto. E que se resolve com juízo, modéstia e bom senso.
E este outro do Mauro Chaves:
Disparates
Por Mauro Chaves, é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor.
Um presidente de multinacional, de forma gratuita e inexplicável, afirma que, “se o Piauí deixar de existir, ninguém vai ficar chateado”; um coordenador do colegiado de uma faculdade de medicina da Bahia, para justificar o fracasso de sua escola na avaliação do Ministério da Educação, afirma que os estudantes baianos têm “déficit de inteligência” e que os baianos só são bons no berimbau porque o instrumento só tem uma corda - se tivesse mais, os neurônios baianos não dariam conta; um ator medíocre, já em fase de plena decadência, propõe, simplesmente, uma campanha para demolir o Cristo Redentor (foto), porque “o Cristo atrapalha o visual” do Rio.
O que significa esse festival acachapante de disparates, esse amontoado descomunal de besteiras que a mídia não se peja de reproduzir, como se fôssemos uma sociedade de parvos ignaros, débeis mentais, capazes de ouvir quietos, sem reação, qualquer baboseira?
É claro que o desejo compulsivo de aparecer diante dos holofotes e das câmeras de televisão, nestes tempos rasteiros de Big Brother, só explica parcialmente esse surto de imbecilidade galopante. É verdade que “nunca antes neste país” existiu tamanho frenesi de exibição pública. Talvez seja porque “de tanto ver triunfar as nulidades”, como dizia o gênio Ruy (por sinal, baiano), “todo mundo resolveu fazer uma tentativa” (como completava a frase escrita no banheiro do antigo Jogral). O negócio é “aparecer na mídia”, seja de que jeito for - e às vezes o espaço midiático está na razão direta do tamanho da besteira proferida. Há mais, porém. O problema é que, no Brasil, a vergonha acabou. E quando a vergonha acaba, tudo é permitido dizer.
Quando a vergonha acaba vêm à tona as justificativas mais estapafúrdias, que parecem pretender reduzir a nitrato de pó de traque a inteligência do povo. Por exemplo, quando o reitor do saca-rolha de R$ 849 tentou justificar o gasto de R$ 450 mil (desviados da pesquisa científica) na decoração de seu apartamento funcional, disse que para mobiliar um apartamento “é preciso seguir uma linha estética” (o que justificava, também, a compra - com dinheiro público - de lixeiras de R$ 1 mil). Quando o governador cearense tentou justificar seu dispendioso aerossogra, “esclareceu” que ao se fretar um jato se paga por quilômetro percorrido, e não pelo número de passageiros - argumento, aliás, totalmente endossado pelo presidente da República, em sua solidariedade contumaz a autores de “erros administrativos”, gestores de “recursos não-contabilizados” e montadores de “bancos de dados”. Em nenhum momento se explicou por que o governador e seus secretários deixaram de usar vôos comerciais (muitíssimo mais em conta) para passear pelo mundo atraindo “investimentos para o Ceará”.
E o que dizer do “ministro do futuro” (o já famoso titular da Sealopra), que defendeu a transposição das águas do Rio Amazonas para o semi-árido nordestino? Esse aí só falta agora propor a cavação de um enorme buraco em algum lugar do Brasil para que, atravessando a Terra, cheguemos de elevador até o Japão - embora comecemos a viagem em pé e a terminemos de cabeça para baixo. É que, quando acaba a vergonha, também acabam os limites da imaginação - assim como os da espantosa criatividade em jogar fora o dinheiro público.
Quando não se tem mais compromisso com a verdade dos fatos, o reino do “como se fosse” é ilimitado. Nele se constroem as verdades de acordo com cada conveniência pessoal. Nos homens públicos, muitas vezes, essa conveniência pessoal é camuflada por fajutos “princípios”. Candidaturas são lançadas a pretexto de “chamamentos” que não existem, a lealdade é desprezada em nome de suposto “direito” partidário, o medo de ficar sem emprego político se transforma em “ideal doutrinário”, o pavor de perder “espaço na mídia” vira “missão de soldado do partido” e outras atitudes que só impressionam os debilóides, tais como o de se ser bicão de inaugurações alheias.
Na verdade, cada vez mais as pessoas públicas parecem menos empenhadas em “convencer” quem quer que seja do que for. Antes os parlamentares aproveitavam as vésperas dos recessos ou dos feriados para, na calada da noite, sem ninguém perceber, fazer seus indecentes reajustes de ganhos. Hoje perpetram seus avanços no dinheiro público em plena luz do dia. Os magistrados, que só “falavam nos autos” e enrubesciam ao tratar de seus assuntos corporativos, hoje (com as honrosas exceções de praxe) falam a torto e a direito e em qualquer lugar, tanto anunciando a sentença que vão proferir quanto o reajuste de ganho que vão reivindicar.
Quando tudo isso começou? Não éramos assim. Em algum momento o tecido da vergonha nacional começou a esgarçar. Tínhamos vergonha quando éramos chamados pela professora para mostrar o dever de casa e não o tínhamos feito; quando convidávamos a namorada para jantar e faltava dinheiro para pagar a conta; quando esquecíamos de levar presente numa festa de aniversário; quando cometíamos alguma indelicadeza com alguém - sem querer ou querendo. Hoje as pessoas erram e nem se tocam em corrigir, fazem serviço com defeito e não estão nem aí, esbarram com outras na rua, dão mochiladas no metrô, cotoveladas, pisões de pé, trancos, avançam nas faixas de pedestres, dão “fechadas”, atropelam - e nem se dignam a dar uma olhadinha para a vítima, muito menos pedir-lhe desculpas. E quando os famosos “abrem a alma” diante das câmeras para confessar que “erraram”, nem assim demonstram sentir qualquer vergonha - mais parecem possuídos de um estranho sentimento de vítima heróica.
Sim, realmente, no Brasil a vergonha acabou. E quando a vergonha acaba…